Há umas semanas atrás pediram-me para fazer uma sessão de trabalho utilizando o Aikido de uma forma adaptada a pessoas com deficiência, ou necessidades especiais (como se diz hoje em dia - os termos politicamente correctos também ele se vão adaptando). Aceitei este desafio de bom grado, e de uma forma generalista apresentei um trabalho que tendo por base os princípios do Aikido trabalham quer o corpo e a mente de acordo com a capacidade e disponibilidade de cada um.
O Aikido, como me foi ensinado, ou como eu interpretei o que me era transmitido, é a arte da adaptação ao outro, outros ou meio envolvente. Realizar um trabalho para demonstrar esta capacidade do Aikido é um desafio a mostrar Aikido.
Durante anos tive a oportunidade de estar perto de alguém que teve a necessidade de adaptar o movimento a um corpo que se ia deteriorando, perdendo vigor, sensibilidade, força muscular. Não foi por isso que o que mostrava aos alunos era menos cativante, belo. Despertava o entusiasmo com quem partilhava o seu Aikido e movia com isso vontades.
Toda a arte do combate codificada, como o Aikido, o Karate, Judo, Kendo, etc, tem um número limitado de movimentos ou combinações, podendo ser em maior ou menor número. No Aikido este número é elevado, entre combinações de interior/exterior, abordagem inicial (formas de ataque), e finalizações. Mesmo assim é limitado, em número grande, mas limitado. Isto quer dizer que mais cedo ou mais tarde, conseguimos, de forma mais ou menos perfeccionista, saber executar todas essas combinações. Mas o que contagia e faz perdurar a prática, mesmo após esse conhecimento adquirido, é a necessidade de constante adaptação ao próprio corpo e mente, bem como aos parceiros (corpo e mente) que, de forma constante, vão mudando e vão tendo necessidades e desafios diferentes. Fazendo assim evoluir o exercício, o corpo e a mente na mesma actividade.
Quem não entende esta constante mudança e necessidade de adaptação, acaba por desistir desta prática; ou porque não consegue corresponder ao desafio ou porque o corpo não o deixa continuar (mais conhecido por lesão).
O Japão, conhecido por ser o país de entre muitas outras coisas como o sushi, a tecnologia, a história, é também um país onde existe uma das médias de vida mais elevadas no mundo (veja-se o elevado número de centenários). Os motivos dessa longevidade não são devidos a uma única causa, mas certamente a um conjunto de factores, de entre os quais talvez estejam a capacidade e tenacidade na adaptação à prática regular de actividade física. Esta é fruto certamente da cultura japonesa que é impregnada dos princípios subjacentes às artes marciais - dos antigos samurai.
O Aikido a arte marcial que foi codificada há menos tempo, tem talvez por isso essa capacidade especial de ser trabalhada à medida de cada um, sejam eles jovens, adultos, com vigor físico, com alguma característica física ou mental fora do comum, com um corpo ou uma mente a precisar de atenção, ou com uma idade mais avançada.
Sendo uma arte em que não há efectivamente um vencido e um vencedor (não existe competição no Aikido) ela retira o peso do objectivo final - da concretização sob a forma de vitória da acção desenvolvida. Este peso pode assim ser colocado na acção em si, e na forma como ela se desenrola. O movimento é justo à medida de cada um, no critério de exigência de cada um, ou no máximo dos directamente (fisicamente e mentalmente) envolvidos na acção. Abrindo-se assim a porta a uma prática em quem reflecte sobre a nossa execução somos nós mesmos, e quem coloca a fasquia da exigência somos nós mesmos. A idade, as desvantagens físicas, ou mentais, deixam de ser um obstáculo, pois a actividade deve ser feita de uma forma sem julgamento.
Entendo por isso que Aikido é necessariamente adaptado, as formas codificadas servem como um ponto de partida para essa adaptação. E essa capacidade de adaptação talvez se possa também designar por evolução.
Aikido é adaptável sim, à idade, capacidade física, perceptiva, cognitiva, etc. Temos talvez de dar mais espaço à reflexão sobre o «como fazemos Aikido» e menos ao julgamento.
