quinta-feira, outubro 31, 2013

O cuidado no gesto

Presenciar uma cerimónia do chá 

Não sei se já tiveram a oportunidade de presenciar uma cerimónia do chá japonesa, se não tiveram procurem essa experiência. Todo o movimento é importante, todos os passos do processo são fundamentais, em todos eles é dada total atenção ao momento presente, a gesto a executar.
Todos os movimentos parecem justos, precisos, não por conhecermos o movimento ou saber que naquele gesto a mão deve ir de um determinado ponto ao outro (eu pelo menos não o sei), mas por sentirmos que quem o executa o faz de corpo e alma e com a tranquilidade e descontracção de quem conhece profundamente o que está fazendo.

Faz atenção ... 

Há uns anos atrás (não tantos assim ...) participava de um estágio de Aikido dirigido pelo Mestre Georges Stobbaerts. Ele é um Mestre do gesto, do movimento.
Na ocasião era o Aite (uke) dele e normalmente usava um tenugui para poder enxugar o rosto e os pulsos (tenho a tendência para transpirar bastante). Já no meio de uma aulas e após ter participado na demonstração de vários movimentos apresentados por ele, senti a necessidade de limpar o rosto. Tirei o tenugui de dentro do keikoGi e limpei-o. Ainda não tinha terminado este gesto e ele me solicitou para demonstrar de novo o movimento que estava a transmitir aos restantes alunos; na urgência de atender ao seu pedido, atirei como tenugui para o lado e para o chão ... Ele olhou para mim e mostrou claramente a reprovação desse gesto, de desprezo para com o objecto que estava na minha mão. Fui apanhar o tenugui, guardei-o no seu devido lugar e após isso continuamos.
Tudo o que fazemos deve merecer a nossa atenção, todo o objecto é merecedor da nossa delicadeza para com ele. O desrespeito mostrado ali pelo tenugui, é um desrespeito para com tudo o que estava naquele universo (no tatami, na ocasião).
Porque não ter o tempo de guardar o tenugui no seu lugar, dando-lhe a atenção devida, esse pequeno momento não tiraria nada aos gestos, movimentos, que se seguiriam; antes pelo contrário dariam mais valor e os elevariam.

O mundo ocidental e o gesto

A urgência com que se vive hoje em dia, instigada pela necessidade de produzir mais, mais e mais, sendo para isso também necessário consumir mais, mais e mais, leva-nos a desprezar o que achamos não ser "produtivo".
Lembro-me de na casa do meu avô, numa pequena vila no Interior de Portugal, ser dada importância fundamental ao tempo de esperar uns pelos outros. Ao cuidado dado na forma como segurar nos objectos, na forma como os entregar a um terceiro. Tudo isso ocupa espaço e tempo na vida, não é aparentemente produtivo. Mas é o gesto que transmite o nosso coração ao outro, não o gesto egoísta (que pode ser meticuloso e detalhado), mas o gesto generoso e atencioso para com quem / o que o recebe.
Esta importância do gesto está-se a perder, mas acredito que será ele a salvar a forma como vivemos e sentimos o nosso universo.

As Artes do Budo e o gesto

As artes de Budo são (ou deviam ser) artes nobres, não nobres no sentido do status social, mas nobres no sentido da atitude, da postura para com os outros e para com as coisas.
Falo do Kendo e do Aikido, pois são aquelas que conheço melhor, mas certamente em outras artes se encontrarão os mesmos princípios. O Kendo é uma Arte extremamente formal, em que é dada extrema importância à execução correcto do gesto. Quem presencia um combate de Kendo poderá observar isso. O normal será tentar observar a parte do quem vence/perde, pois é isso que estamos instigados a fazer no nosso dia-a-dia. Mas observe o antes do combate, o depois do combate, o diálogo entre juízes e praticantes. Poderá observar essa atenção com o outro, o respeito pelo que o outro representa, pelos objectos utilizados.
Uma aula de Kendo é impregnada do principio ao fim da atenção ao gesto, da atenção ao que nos rodeia, aquilo que utilizamos, à roupa que vestimos.

No Aikido o principio é estarmos em harmonia com o universo. Como  poderemos almejar conseguir isto sem cuidarmos dele (universo). Cuidar não é mais do que estar atento ao que nos está próximo, ao alcance da mão, do pé, a um passo de distância. Se no nosso gesto enquanto aikidoca mostramos violência, arrogância, falta de atenção, estaremos a procurar alcançar essa harmonia? Se não mostramos essa harmonia com um objecto (sem vida , sem acção própria), ele tomará essa nossa intenção e será um objecto desarmonioso. Se o fizermos com alguém ou com outro ser vivo, o mesmo provavelmente acontecerá.
Começo a compreender a importância dada pelo Mestre Stobbaerts ao trabalho da caligrafia. Não é pelo que pomos no papel, mas é como o fazemos. O Aikido é igual, o Kendo é igual, a vida é igual.


quarta-feira, outubro 23, 2013

Kendo com Aikawa Sensei

Hoje tive a oportunidade de praticar e ter uma aula de Kendo com o Aikawa Sensei, 7 Dan de Kendo.
Embora a aula tenha sido aparentemente básica, sem grandes técnicas, muitas coisas essenciais ao kendo, ela foi muito rica para quem tenha estado com alguma atenção.
Aikawa não parece ser um grande Sensei, comparado por exemplo com os "gurus" que tenho encontrado no Aikido. Mas com uma simplicidade enorme e uma entrega total para com o kendo ele ensina e dá o melhor dele.
Hoje aprendi muito, não de técnica ou de "truques" para ganhar, mas do que me falta para conseguir ter a mesma entrega e humildade de ensinar.
Duas coisas ficaram na minha memória dessa aula, o mais importante no kendo é o olhar, ver, depois os pés, depois o resto.
Permitam-me a comparação com o Aikido, em que este tipo de sensibilidades estão a ser asfixiadas pelos "tecnicistas" que querem transforma o aikido numa arte de "combat games".

A segunda, foi que tenho que aprender a esvaziar ... antes da acção.


obrigado, Aikawa Sensei pela oportunidade de praticar consigo.

sexta-feira, outubro 11, 2013

fica em paz, procura esta paz

O que é Paz? ficar em paz?

O ditado diz que só ficamos realmente em paz quando ficamos sem vida. A vida não nos permite ficar em paz? Quando vivemos envolvidos com outras pessoas, companheira, filhos, mãe, pai, irmãos, amigos, conhecidos, colegas trabalho,  o conflito surge a todo o instante. Este conflito perturba a nossa paz.
Com os mais próximos qualquer instabilidade do outro consegue perturbar a paz, a maior parte das vezes a possibilidade de surgir a instabilidade já é suficiente para perturbar a paz.
A preocupação toma conta e retira toda a possibilidade de nos sentirmos em paz. Só conseguimos retornar à paz, quando essa nuvem se dissipa e achamos que o próximo momento será de serenidade na vida desse outro ser.
Mas com uma sociedade que exige sucesso, vitórias, consumo e mais consumo a paz jamais será alcançada, porque atrás de uma nuvem, vem outra, e atrás dela mais nuvens, que facilmente se transformam em tempestades que deixamos conseguir controlar.
No Aikido, no Kendo, nas artes ditas marciais, ensinam-nos a ser um com o outro, no fundo a estar em paz com ele, a não ter nenhuma nuvem entre nós. A prática com nuvens torna-se complicada, conflituosa, os movimentos errados, não harmoniosos...
A procura da paz é então não mais do que a procurar da harmonia com o que nos envolve?
e como fazer perceber os outros que é assim, sem nos deixarmos sugar no remoinho da procura da paz?
Como bater um Men em harmonia com o outro? ele não quer que eu bata Men ... no entanto o ataque deve ser harmonioso ... não é a vida muitas vezes assim? e nós batemos um men todo "troncho" ?
Alcançar nossos objectivos em Harmonia com os que nos rodeiam, os que causam oposição ou dificuldades, seria estar em paz ...




terça-feira, setembro 17, 2013

Shisei

Shisei pode ser traduzido como "postura, atitude".


Para além do aspecto físico evidente (postura) a associação da palavra atitude indica que o sentido deste conceito vai bem para além da mera posição física. Em português "postura" significa (priberam):
s. f.
1. Atitude do corpo.
2. Composição para dar mais realce ao rosto; arrebique.
3. [Antigo]  Expressão da fisionomia.
4. Ordem dimanada das câmaras municipais.

5. Quantidade de ovos que as galinhas põem durante um certo número de dias consecutivos ou interpolados.

os significados 4 e 5 não são, evidentemente, os que nós procuramos ...


Mas os significados atribuídos no dicionário ao termo  "postura" são redutores em relação ao que se pode entender. Em português a expressão "ter uma boa postura perante uma situação", não significa apenas ter uma atitude do corpo correcta. Implica que a postura interior, a intenção, atenção, sensibilidade sejam correctas, boas. O mesmo se aplica à palavra "atitude". Não é que os termos Japoneses por vezes sejam mais ricos, é que nós por vezes reduzimos o valor e riqueza dos nossos, na tentativa de dissecar e estruturar com a pressuposta atitude cientifica.

Manter a atitude ou postura justa perante todas as situações que se nos colocam é algo que todo o "budoka" almeja. Primeiro devemos reflectir sobre o que achamos ser justo. Cada um terá certamente a sua opinião e o seu conceito de justo, de acordo com a sua cultura, envolvente social, ética. A justiça é um conceito que é referido desde a Grécia antiga, faz parte dos pilares da sociedade e não é nem nunca foi um conceito entendido por todos da mesma forma. Platão, por exemplo, apresenta o conceito de Justiça como "Justiça é Harmonia"  ...

O termo latino iustus é traduzido em inglês com "upright, just"; os conceito de justo está tão intimamente ligado à postura como o de postura à de justo.

Se ligarmos estes dois podemos então concluir que uma postura justa é Harmoniosa?


No Aikido ... ou Budo

Na prática do Aikido, no seu trabalho diário deve-se fazer atenção constante a esta intenção de obter o Shisei justo a cada situação.

Podemos talvez analisar alguns principios básicos do Aikido e com eles estudar o Shisei:

No Aikido, frequentemente trabalhamos o desequilibro / projecção do parceiro. Devemos, nesse caso, nos preocupar sempre em manter o equilíbrio dentro da execução do movimento. Não pretendemos desequilibrar o parceiro a "qualquer preço". Queremos levar o nosso parceiro a uma determinada situação, mas sem nos desviarmos da nossa "postura", sem perder a nossa "atitude".


Da mesma forma, no Aikido, perante um movimento de ataque aparentemente mais "agressivo" ou "directo" (shomen uchi, tsuki) que nos possa "incomodar" mais devemos trabalhar para o encarar de forma serena e confiante. Qual será a forma de manter o nosso shisei ? Teremos que trabalhar sem desanimo para poder enfrentar esses nossos medos e conseguir perante essa situação ter a atitude e postura que temos perante um ataque com o qual à partida estamos mais à vontade.
Usar a técnica a favor do Shisei.


Outra noção que trabalhamos sem descanso é o entrar "para o meio da confusão". Ir para o centro do furacão e ordenar e pacificar a acção...
Para conseguir realizar esta tarefa, de difícil execução, temos que avançar com a postura correcta e mantê-la durante todo o tempo, sem ceder a aparentes facilidades de ir para a periferia.
Repetir este gesto (de ir para o centro) forjará nossa postura e atitude na direcção pretendida, mas, como toda a obra de arte, levará tempo a ser conseguida.
Não nos podemos esquecer do objectivo com que entramos no centro da acção, ordenar, orientar, pacificar, e não expulsar ou destruir ...


Finalmente, o "outro", o nosso shisei perante o "outro". 
Encarar o "outro" (o parceiro) com algo externo a nós, levar-nos-á certamente e uma atitude menos justa. É preciso trabalhar no sentido de conseguir estar tão atento ao nosso parceiro como conseguimos estar em relação a nós; sentir o parceiro com se ele fosse nós. 
Nesta direcção de prática, tornaremos-nos um com ele e o movimento tornar-se-á sempre justo. Nós só tropeçamos quando nos distraímos, perdemos a atenção ao que o nosso corpo nos indica. Não será então que se conseguirmos sentir o nosso parceiro como nos sentimos a nós, com a mesma atenção, vigilância, resposta a alertas, a nossa acção com ele se fará sem oposição, sem conflito?









quinta-feira, setembro 12, 2013

They wanted to hurt us, and we wanted to dance

Procurando inspiração para dar um tema / linha a um estágio de Aikido encontrei este texto num site de Aikido para crianças:

Every technique we study in Aikido involves practicing the art of creating a change in the situation - a situation where you are being attacked is changed to a situation of containment - a pin - or to one of escape - they are taking a roll, and you have time to get away safely.
Creating this change requires four things from us
  1. We must maintain our own balance while taking theirs - Illustrate with Tenchinage & Yakute Dori Ikkyo
  2. We must react fearlessly - Illustrate with Shomen Uchi Irimi Nage Omote
  3. We must enter into the very center of the conflict - Illustrate with Katate Dori Irimi Kokyu Nage
  4. We must understand our opponent's intentions in order to achieve resolution - Illustrate with Munetsuki Kotegaeshi Tenkan, pausing after the initial blend
When we follow these four steps for creating change, we don't just change the situation, we change our opponents.
They began the interaction wanting to attack us - believing us to be their enemy. By demonstrating our desire to understand them and by manifesting enough concern for them to make sure they don't get hurt - we change their mind, we change their anger, and we change their role.
They wanted to hurt us, and we wanted to dance. And if our Aikido is good enough, and our ability to dance is better than their ability to hurt us, they don’t want to hurt us anymore. They stop being our opponent. They start being our partner.


Para além de apresentar uma abordagem bem interessante ao que realmente praticamos no Aikido, são claros, sem receios ... que faz aikido dança ... não tenham ilusões. E se não o fazem, será que realmente querem fazer Aikido?


segunda-feira, junho 03, 2013

Sinceridade ...

sincero |é|
adj.
1. Que é verdadeiro e espontâneo.
2. Que exprime só o que sente e pensa.
3. Que traduz o que sente no coração.
4. Cordial.
5. Verdadeiro.
6. Leal.
7. Natural.


Sinceridade
s.f. Qualidade daquilo que é sincero; franqueza, lisura de caráter: a sinceridade é uma virtude preciosa. / Palavras, propósitos sinceros: perdoe a minha sinceridade.

Uma virtude ao que parece preterida, muitas vezes escondida, mesmo abafada. Será o medo de não ser "perdoado" por ter sido sincero, ou o medo de não agradar a todos? E porquê essa necessidade de agradar a todos?

Valerá a pena renunciar às nossas convicções para poder ser aceite num mundo das redes sociais, em que o que conta é o número de amigos, e não a qualidade dos amigos? Sobre as ideias dos outros somos, de base, impossibilitados de discordar neste novo mundo social; só podemos "gostar/curtir" ou ... abster-mo-nos e ficar de fora! Ser sincero fica à partida limitado ao que é "simpático", e não ao que é verdadeiro...

E desta forma transpõem-se as acções para o quotidiano, não dizemos que não a um compromisso, "curtimos" mas nunca renunciamos, não discordamos de uma ideia, abstemos-nos de comentar. Desta forma estamos numa sociedade que se comunica à superfície, em que o pensamento não interessa, mas o principal é estar curtindo/gostando.
Participar deixa de ser interessante já que podemos apenas aparecer e "marcar presença" sem estar presente.

Viver uma experiência passa a ser o passar por uma experiência fugazmente, mas sem esquecer de tirar uma foto, e partilhar para que todos possam "curtir".

Ensinar (ou tentar) uma actividade que só se aprende com o tempo, presença constante, perseverança, esforço, paciência e muita sinceridade torna-se frustrante.

Fala-se muitas vezes que a nova geração (as crianças) não são capazes de se focar ou gostar de uma actividade, que desistem muito rápido de tudo. Mas quem lhes ensina isso? Os "elementos activos" da sociedade actual, da geração actual, fazem diferente? Foi esta geração que criou a rede social virtual, a partilha rápida do que faz, sendo que é necessário fazer muita coisa e rapidamente, para poder estar sempre no auge da dita rede social. Será essa herança que deixaremos para a próxima geração.

O que será de artes como a música, a escrita, artes que dependem de tempo de dedicação sem que haja nenhuma "novidade"?
Tentar ensinar Aikido ,ou Kendo, numa sociedade de "rede social" é desesperante. Como exigir de alguém que esteja presente, que seja sincero no que diz, no que sente, se a sociedade o que solicita é o contrário. Como se pode compreender alguém que não é sincero, que se esconde por detrás de um sorriso constante, de um "estar feliz" superficial?

Ser sincero é uma virtude que temos que recuperar ... a começar por ser sincero consigo mesmo