sexta-feira, outubro 18, 2019

Métodos de ensino / método de estudo

Sobre as formas de ensino, técnicas de transmissão, organização de práticas / treinos, há já muita coisa publicada, com base científica, com vasta experiência, etc.

Não quero reflectir sobre a forma de fazer um aquecimento, os ritmos a impor durante um treino, os tempos de acalmia e recuperação.

No Aikido (e facilmente se aplica a outras artes corporais similares) o que propomos aos praticantes? Acho que essa deve ser a primeira questão que nos devemos colocar. Conforme a resposta temos então que adoptar a forma de ensino adequada. Se queremos propor uma prática direccionada para a defesa pessoal, ou combate, deveremos ser capazes de criar um ambiente propicio a esse trabalho.

Na minha perspectiva , vejo estas práticas como uma forma de auto-conhecimento e de melhoria pessoal, enquanto individuo e membro de uma sociedade, contribuindo para a melhoria dessa sociedade.

Hoje li num artigo, sobre um tema relacionado (mas não tendo nada ver com artes marciais), que a questão central que une as nossas comunidades é a de "como viver uma vida mais saudável (ou sustentável como se diz hoje em dia)?".
Acredito que a prática de actividades como o Aikido, podem ajudar a procurar uma resposta. Somos obrigados a fazer atenção ao nosso corpo, à sua saúde física - temos que o manter correctamente alimentado  e exercitá-lo regularmente - e à sua saúde mental - temos que aprender a fazer face a dificuldades em executar tarefas com o corpo, a tentar superar essas dificuldades, a saber reconhecer falhas nas nossas capacidades, a superar essas dificuldades. A lidar com situações que nos colocam em tensão física e mental, a aprender a recuperar a calma mental e física. A reconhecer os nossos limites no momento e gerir as nossas energias.

Evidentemente tudo isto de uma só vez, é muito difícil de conseguir compreender e digerir. O professor tem que aprender a ler os praticantes, a ver se os exercícios os estão a ajudar a compreender algo mais sobre si mesmos e sobre a sua interacção com o grupo. Para isso tem ele próprio que aprender a ter paciência, a ser generoso no seu tempo e na sua humildade. As tarefas propostas tem que ser desafiantes, mas perfeitamente possíveis de serem realizadas. Deve conseguir traçar objectivos a longo prazo, mas criar tarefas a curto prazo concretizáveis e que contribuam para o objectivo traçado.
Fazer trabalhar a compreensão do corpo e da mente e da forma como elas interagem, e como estes seres interagem com outros com interesses comuns, mas não necessariamente sobrepostos.

Não basta pois executar um movimento de shionage ou kotegaeshi, se esse movimento não permite ao executante trabalhar e compreender o seu corpo e a sua mente - seja a simples coordenação motora, o foco no momento, o vencer a frustração, a persistência no entendimento, a empatia com o parceiro. É a responsabilidade do professor, treinador, liderar e orientar esse estudo, doseando na medida certa os ingredientes.

O método de estudo principal é o de pensar em conjunto como viver uma vida mais saudável. A ferramenta é o conhecimento dos movimentos do Aikido e a sua aplicação ao grupo presente.

bons estudos!

domingo, outubro 13, 2019

Aikido Adaptado

Há umas semanas atrás pediram-me para fazer uma sessão de trabalho utilizando o Aikido de uma forma adaptada a pessoas com deficiência, ou necessidades especiais (como se diz hoje em dia - os termos politicamente correctos também ele se vão adaptando). Aceitei este desafio de bom grado, e de uma forma generalista apresentei um trabalho que tendo por base os princípios do Aikido trabalham quer o corpo e a mente de acordo com a capacidade e disponibilidade de cada um.

O Aikido, como me foi ensinado, ou como eu interpretei o que me era transmitido, é a arte da adaptação ao outro, outros ou meio envolvente. Realizar um trabalho para demonstrar esta capacidade do Aikido é um desafio a mostrar Aikido.

Durante anos tive a oportunidade de estar perto de alguém que teve a necessidade de adaptar o movimento a um corpo que se ia deteriorando, perdendo vigor, sensibilidade, força muscular. Não foi por isso que o que mostrava aos alunos era menos cativante, belo. Despertava o entusiasmo com quem partilhava o seu Aikido e movia com isso vontades.
Toda a arte do combate codificada, como o Aikido, o Karate, Judo, Kendo, etc, tem um número limitado de movimentos ou combinações, podendo ser em maior ou menor número. No Aikido este número é elevado, entre combinações de interior/exterior, abordagem inicial (formas de ataque), e finalizações. Mesmo assim é limitado, em número grande, mas limitado. Isto quer dizer que mais cedo ou mais tarde, conseguimos, de forma mais ou menos perfeccionista, saber executar todas essas combinações. Mas o que contagia e faz perdurar a prática, mesmo após esse conhecimento adquirido, é a necessidade de constante adaptação ao próprio corpo e mente, bem como aos parceiros (corpo e mente) que, de forma constante, vão mudando e vão tendo necessidades e desafios diferentes. Fazendo assim evoluir o exercício, o corpo e a mente na mesma actividade.

Quem não entende esta constante mudança e necessidade de adaptação, acaba por desistir desta prática; ou porque não consegue corresponder ao desafio ou porque o corpo não o deixa continuar (mais conhecido por lesão).

O Japão, conhecido por ser o país de entre muitas outras coisas como o sushi, a tecnologia, a história, é também um país onde existe uma das médias de vida mais elevadas no mundo (veja-se o elevado número de centenários). Os motivos dessa longevidade não são devidos a uma única causa, mas certamente a um conjunto de factores, de entre os quais talvez estejam a capacidade e tenacidade na adaptação à prática regular de actividade física. Esta é fruto certamente da cultura japonesa que é impregnada dos princípios subjacentes às artes marciais - dos antigos samurai.
O Aikido a arte marcial que foi codificada há menos tempo, tem talvez por isso essa capacidade especial de ser trabalhada à medida de cada um, sejam eles jovens, adultos, com vigor físico, com alguma característica física ou mental fora do comum, com um corpo ou uma mente a precisar de atenção, ou com uma idade mais avançada.
Sendo uma arte em que não há efectivamente um vencido e um vencedor (não existe competição no Aikido) ela retira o peso do objectivo final - da concretização sob a forma de vitória da acção desenvolvida. Este peso pode assim ser colocado na acção em si, e na forma como ela se desenrola. O movimento é justo à medida de cada um, no critério de exigência de cada um, ou no máximo dos directamente (fisicamente e mentalmente) envolvidos na acção. Abrindo-se assim a porta a uma prática em quem reflecte sobre a nossa execução somos nós mesmos, e quem coloca a fasquia da exigência somos nós mesmos. A idade, as desvantagens físicas, ou mentais, deixam de ser um obstáculo, pois a actividade deve ser feita de uma forma sem julgamento.

Entendo por isso que Aikido é necessariamente adaptado, as formas codificadas servem como um ponto de partida para essa adaptação. E essa capacidade de adaptação talvez se possa também designar por evolução.

Aikido é adaptável sim, à idade, capacidade física, perceptiva, cognitiva, etc. Temos talvez de dar mais espaço à reflexão sobre o «como fazemos Aikido» e menos ao julgamento.