terça-feira, setembro 17, 2013

Shisei

Shisei pode ser traduzido como "postura, atitude".


Para além do aspecto físico evidente (postura) a associação da palavra atitude indica que o sentido deste conceito vai bem para além da mera posição física. Em português "postura" significa (priberam):
s. f.
1. Atitude do corpo.
2. Composição para dar mais realce ao rosto; arrebique.
3. [Antigo]  Expressão da fisionomia.
4. Ordem dimanada das câmaras municipais.

5. Quantidade de ovos que as galinhas põem durante um certo número de dias consecutivos ou interpolados.

os significados 4 e 5 não são, evidentemente, os que nós procuramos ...


Mas os significados atribuídos no dicionário ao termo  "postura" são redutores em relação ao que se pode entender. Em português a expressão "ter uma boa postura perante uma situação", não significa apenas ter uma atitude do corpo correcta. Implica que a postura interior, a intenção, atenção, sensibilidade sejam correctas, boas. O mesmo se aplica à palavra "atitude". Não é que os termos Japoneses por vezes sejam mais ricos, é que nós por vezes reduzimos o valor e riqueza dos nossos, na tentativa de dissecar e estruturar com a pressuposta atitude cientifica.

Manter a atitude ou postura justa perante todas as situações que se nos colocam é algo que todo o "budoka" almeja. Primeiro devemos reflectir sobre o que achamos ser justo. Cada um terá certamente a sua opinião e o seu conceito de justo, de acordo com a sua cultura, envolvente social, ética. A justiça é um conceito que é referido desde a Grécia antiga, faz parte dos pilares da sociedade e não é nem nunca foi um conceito entendido por todos da mesma forma. Platão, por exemplo, apresenta o conceito de Justiça como "Justiça é Harmonia"  ...

O termo latino iustus é traduzido em inglês com "upright, just"; os conceito de justo está tão intimamente ligado à postura como o de postura à de justo.

Se ligarmos estes dois podemos então concluir que uma postura justa é Harmoniosa?


No Aikido ... ou Budo

Na prática do Aikido, no seu trabalho diário deve-se fazer atenção constante a esta intenção de obter o Shisei justo a cada situação.

Podemos talvez analisar alguns principios básicos do Aikido e com eles estudar o Shisei:

No Aikido, frequentemente trabalhamos o desequilibro / projecção do parceiro. Devemos, nesse caso, nos preocupar sempre em manter o equilíbrio dentro da execução do movimento. Não pretendemos desequilibrar o parceiro a "qualquer preço". Queremos levar o nosso parceiro a uma determinada situação, mas sem nos desviarmos da nossa "postura", sem perder a nossa "atitude".


Da mesma forma, no Aikido, perante um movimento de ataque aparentemente mais "agressivo" ou "directo" (shomen uchi, tsuki) que nos possa "incomodar" mais devemos trabalhar para o encarar de forma serena e confiante. Qual será a forma de manter o nosso shisei ? Teremos que trabalhar sem desanimo para poder enfrentar esses nossos medos e conseguir perante essa situação ter a atitude e postura que temos perante um ataque com o qual à partida estamos mais à vontade.
Usar a técnica a favor do Shisei.


Outra noção que trabalhamos sem descanso é o entrar "para o meio da confusão". Ir para o centro do furacão e ordenar e pacificar a acção...
Para conseguir realizar esta tarefa, de difícil execução, temos que avançar com a postura correcta e mantê-la durante todo o tempo, sem ceder a aparentes facilidades de ir para a periferia.
Repetir este gesto (de ir para o centro) forjará nossa postura e atitude na direcção pretendida, mas, como toda a obra de arte, levará tempo a ser conseguida.
Não nos podemos esquecer do objectivo com que entramos no centro da acção, ordenar, orientar, pacificar, e não expulsar ou destruir ...


Finalmente, o "outro", o nosso shisei perante o "outro". 
Encarar o "outro" (o parceiro) com algo externo a nós, levar-nos-á certamente e uma atitude menos justa. É preciso trabalhar no sentido de conseguir estar tão atento ao nosso parceiro como conseguimos estar em relação a nós; sentir o parceiro com se ele fosse nós. 
Nesta direcção de prática, tornaremos-nos um com ele e o movimento tornar-se-á sempre justo. Nós só tropeçamos quando nos distraímos, perdemos a atenção ao que o nosso corpo nos indica. Não será então que se conseguirmos sentir o nosso parceiro como nos sentimos a nós, com a mesma atenção, vigilância, resposta a alertas, a nossa acção com ele se fará sem oposição, sem conflito?